Claricinha



A bússola era magnífica, feita de pedras de cal, granito e mármore polido. Cobria centenas de metros quadrados do chão da praça. Os pontos cardeais e os números do compasso mostravam direções, em graus, para alcançar megalópoles no país, assim como no mundo inteiro. Imaginei o tempo em que os empedradores tinham feito aquela obra exata. De joelho, suando no sol, com dores nos corpos, e os golpes de martelos que ecoavam como se fossem um crescendo no final de um concerto clássico. No ponto da rosa dos ventos, o obelisco orgulhava-se para cima. Nele, abraçavam-se e serpenteavam-se autores brasileiros bem conhecidos. Monteiro Lobato e José de Alencar acasalam em cima de Cecília Meireles, cujos dedos agarram-se nos joelhos de Carlos Drummond de Andrade. O perfil do corpo de C. D. de A. era como se fizesse um salto carpado e, quem sabe, se ele não tivesse sido autor, teria sido um ginasta que atacaria o cavalo com alças e as barras paralelas. No topo do obelisco, Machado de Assis e Clarice Lispector estavam sentados. As suas cabeças estavam ligeiramente inclinadas e os queixos pareciam apontar para a eternidade sem interesse em observar o que ocorria abaixo. Os anos em torno do século XVIII para XIX eram representados por Graciliano Ramos e Guimarães Rosa. No monumento de cimento, vi também outros autores famosos como se estivessem empilhados um em cima uns dos outros. Conseguia somente identificar alguns deles como Monteiro Lobato e João Cabral de Melo Neto, e, entre eles, os gaúchos Erico Veríssimo junto com Mario Quintana.



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Como narradora, eu queria ser invisível, porque pousei e sentei no sovaco de Cecília Meireles. Olhei para baixo. Observei o trânsito ao redor da praça, segui as bicicletas com as suas rodas, como se fossem cataventos, girando, ouvi os sapatos baterem nas calçadas. Vi uma nuvem avançando na rua, vislumbrei uma silhueta dentro dela. Era uma mulher fina e frágil, com uma atitude imponente. As maçãs do rosto eram altas, o olhar confiante e, na mão, segurava a piteira bocal do cigarro em rubi num aperto elegante. Notei imediatamente que era Claricinha.

Atrás da nuvem, estava o seu ex-namorado desde ontem, que se chamava Pedro Segundo. Naquele tempo era primavera, no entanto, ele estava vestindo um capote de lã grossa em vermelho, importado de Vila Viçosa, no Alentejo, em Portugal. O colarinho de pele escondia o pescoço dele. Para Pedro Segundo, era sempre importante apresentar-se como descendente da família Bragança de Portugal. Como um disco arranhado, ele também contava a história sobre o seu nome, Pedro Segundo: Pedro Primeiro nasceu e a família ficou muito orgulhosa. Infelizmente, Pedro Primeiro teve febre amarela, e brevemente faleceu, quando tinha só 10 meses. A tristeza sobrecarregou a família. Mas, em breve, a rainha deu vida a mais um filho e, claro, o nome dele seria Pedro Segundo.

Nos últimos anos, quando Claricinha ouvia Pedro Segundo discursar, os olhos dela observavam o que acontecia à sua volta, o sorriso ironizava e continuava a fumar o cigarro. Pedro Segundo continuava a declamar sem notar os sinais de Claricinha.

Naquele dia, da minha posição do obelisco, era diferente, Claricinha não via o que acontecia ao redor dela. Era provável que ela pensasse sobre a sua próxima obra escrita, ou que já tivesse subido para a rua, exausta, depois de ter terminado o seu trabalho como motorista de trens da linha rubi no metrô da cidade.

Frequentemente, ela declarava para as colegas de escrita que, no futuro, receberia o Prêmio Nobel. "Só estou esperando que o mundo de editores e a nobreza da academia descubram e percebam a grandeza dos meus textos: a mensagem que é transmitida sobre a alma humana universal e a minha linguagem específica com metáforas, alegorias, paráfrases e analogias excêntricas."



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Caro leitor, você pode estar se perguntando por que eu sei tanto sobre as trilhas na cabeça da autora, ou seja, como os neurônios nas sinapses atiram substâncias neurotransmissoras de um ao outro para criar novos estados mentais. Em outras palavras, como as ideias e pensamentos nascem. Ou será que as ideias e os processos mentais iniciam a comunicação do sistema nervoso?



Anos atrás, depois do café da manhã, a minha dona se comportou de maneira estranha. Na mesa, já estava o saco de cinco quilos com ração "Nutrópica para Papagaio, sabor frutas", os meus brinquedinhos da gaiola, a minha lona preta e mais alguns utensílios que eram meus. Após isso, colocou eles numa mochila. Esticou-se para a prateleira mais alta dentro do armário e pegou uma caixa de sapatos, maior do que o normal, preparada com buracos de respiração. Agora sabia que eu sairia para viajar, mas não sabia para onde ou para quem. Horas depois, a tampa da caixa foi aberta e eu pude sair. Estava na casa de Claricinha, e ali fiquei por alguns meses, enquanto a minha dona foi para Europa. Embora eu soubesse que gostaria muito de entrar na torre Eiffel, de sentar no ponteiro maior do Big Ben e de andar de barco no arquipélago escandinavo, eu não era autorizada a seguir com ela. Por outro lado, tive a oportunidade de conhecer melhor a Claricinha.



Em um dos dias da minha estadia, o almoço estava servido na casa da Claricinha. Depois da refeição e cheia de comida, eu fiquei descansando num poleiro dentro da minh gaiola. A sacada estava quieta, mas era um silêncio como se fosse uma vespa que queria picar alguém. Poderia ser Claricinha, na sua poltrona, que filosofava sobre o que aconteceria quando ela recebesse o Prêmio Nobel:



"Eu imagino centenas de jornalistas em frente à minha casa, mas não teria tempo de dar nenhuma entrevista. Agora não. Em vez disso, prepararia o meu discurso para agradecer. Estaria na Sala de Concertos em Estocolmo. Com as costas retas e os passos seguros, iria para o púlpito do palco para receber o meu Prêmio. Eu me curvaria para o Rei, a Rainha, os Príncipes e as Princesas. Eles estariam sentados à minha frente, nas cadeiras douradas com assentos cobertos de veludo vermelho. Depois, eu me curvaria para o presidente da fundação Prêmio Nobel e para os membros dessa instituição e, finalmente, para todas as outras autoridades e convidados presentes.



Depois dessa cerimônia, resta apenas o famoso jantar na Sala Azul na Câmara Municipal de Estocolmo. À minha frente, haveria 360 metros de mesas. Nas toalhas de mesa de linho, veria 2.700 mãos brindando com 5.400 taças e comendo com 9.540 talheres. Como decoração, cerca de 25.000 flores da Ligúria, da Itália, decorariam as mesas. Como representante dos vencedores do prêmio, eu faria um discurso. Entraria para o pódio, ficaria em silêncio por alguns segundos e olharia para o público para chamar a atenção de todos. Em seguida, viriam as primeiras palavras:



"É uma honra…" e as frases seguintes explicariam, humildemente, os nossos agradecimentos por termos recebido essas nomeações. Continuaria o meu discurso dando uma imagem de um evento legal da minha infância, que represente o início da minha carreira como autora. Daria também exemplos do cotidiano que me inspiram a escrever, tal como as pessoas na rua, uma caçada na África ou um romance antigo. Ficaria quieta por quinze segundos. Procuraria algumas palavras nos meus papéis, como se tivesse esquecido o que deveria dizer. Depois, eu aumentaria a credibilidade do meu discurso usando a literatura mundial, e escolheria algumas citações do cânone da literatura, embora ache que não existe um. Seriam palavras sábias do filósofo Aristóteles, para exemplificar o valor do diálogo para aprender e a importância da interação entre o ambiente e o autor.



Num evento como esse, os intelectuais sempre gostam de rir, ou, pelo menos, sorrir, um pouco. Porque eu, com certeza, brincaria um pouco sobre o Sr. Horácio, cujos lábios repetem seu mantra "Carpe diem"; sobre a poeta Calma, que recita o seu último poema escrito em haicai (que, por acaso, não segue a regra de cinco - sete - cinco sílabas) e sobre o Senhor Fernando P., que hoje está considerando quem dos seus heterônimos ele é. Sério, não importa quais autores eu escolha, porque todas as convidadas estariam preocupadas em pensar se o vestido delas vencerá o prêmio das roupas este ano, se o cabelo tem a cor correta, assim como se a tiara pode competir com as tiaras da Rainha e das Princesas. Finalmente, a sessão na casa do concerto terminaria e eu sairia com a minha cabeça erguida, orgulhosa e, principalmente, com mais dinheiro na bolsa. Agora só me resta torcer para que o meu parceiro de mesa não seja o príncipe, pois preferiria que fosse a princesa".



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Embora eu seja apenas um papagaio, lia bastante bem. Naquele tempo, quando fiquei na casa de Claricinha, ela saiu do apartamento por algumas horas. Na mesa, estava o seu diário aberto. Fiquei ambivalente ler ou não? Embora soubesse que era um crime ler cadernetas pessoais, eu não pude resistir. As palavras chamavam a minha atenção. Comecei a ler as frases, escritas à mão, em um estilo gracioso. Eram as seguintes:

"Estou na pastelaria, nesse lugar onde alguns escritores habitualmente trabalham. Os dedos deles martelam os teclados, as palavras preenchem as páginas, histórias são terminadas. Parece que a inspiração flui dos meus colegas e que eles têm uma ética de trabalho surreal. Na minha frente, há um documento vazio e em branco no meu computador: O que escreverei hoje? Não sei. A minha cabeça, hoje, como quase sempre acontece no momento em que vou escrever, está vazia das ideias, por isso, pergunto-me se seria melhor trabalhar como faroleira em vez de escritora."



As reflexões da Claricinha continuaram com: "Ser escritora é uma profissão estranha, porque é um jogo entre dor e gozo. Pouca gente que escreve gosta de escrever, embora a maioria goste do sentimento depois de acabar o processo de escrita de um artigo, de uma peça de teatro, de um livro ou de um poema. Escrever é como uma maratona ou um campeonato de triáthlon: doloroso enquanto está acontecendo, mas com a recompensa da endorfina no corpo. Depois da corrida, tudo está bem. Ou o que um sexólogo provavelmente diria: é como masoquismo."



Aqui eu fiz uma pausa na leitura do diário da Claricinha para pensar sobre o que significa ser autor. Talvez a escrita fosse um dom e as palavras-chave "dor" e "gozo" ou "trabalho duro" e "fluxo de consciência". Procurei, nas palavras escritas no diário da Claricinha, mais explicações sobre a profissão e vi que a vida emocional do escritor está ligada a onde ele está no processo da autoria. Formular a sua mensagem por escrito, para afirmar e manifestar a sua opinião em palavras, é um processo bem conhecido para ele. É mesmo um privilégio. O escritor não quer complicar as coisas. Quer só escrever, só contar o que está acontecendo e quais são as suas reflexões. O pior é uma folha em branco ou um documento vazio no computador. Uma palavra, depois mais uma e, com um pouco de sorte, uma frase que será ligada às outras está brilhando na tela ou no papel. Logo haverá um texto com um sentido específico! Ao mesmo tempo, o escritor tem centenas de dúvidas sobre a linguagem e sobre o que o texto significa. Isso pode ser paralisante e dar uma cãibra ao escrever, embora essa falta das palavras só seja um conceito que alguns descobriram para adiar o trabalho por mais um dia ou mais uma semana. Infelizmente não são só essas incertezas. Há muitas delas durante o processo.



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Há pessoas que falam sobre escrever, outras que escrevem. Era um dia brilhante quando essas palavras entraram na vida de Claricinha. Os sons das letras e dos fonemas ecoavam nos ouvidos dela, mas ela não entendeu nada. De repente, o barulho diminuiu mas a luta na consciência continuava: "Consigo – não consigo?", "Quero – não quero?", "Sou capaz – não sou?". Anos atrás, Claricinha assistiu a uma aula para escritores. O professor contava a seguinte parábola:



"Os meus passos eram mais longos. Sentia-me como se movesse meu corpo com mais confiança. Passei pelos quarteirões sem ver os adornos nas fachadas, as cortinas drapeadas para cobrir a transparência e os portões seguros dos condomínios. Finalmente alcancei o lugar onde a tranquilidade era a rainha, onde o espaço estava aberto e livre", continuou o professor. "Sentei-me numa pedra de ardósia. O calor espalhava-se dentro de mim. Respirei profundamente e abri as portas das minhas contemplações sobre os conceitos e sobre escrever. Provei-os, senti-os e permiti-os bailar. Era um caos. Mas, enquanto o tempo se passava, a dança era mais calma e finalmente acabou. O verbo não mais estava queimando. De fato, o verbo se transformou num substantivo gostoso: escrita".



Para Claricinha, a conclusão depois a aula era de que o maldito problema é que a escrita é tão pessoal. As palavras são sempre amassadas através do intelecto e, assim, tornam-se uma parte da pessoa. Por isso o efeito é: se alguém detesta o texto, também detesta ela, e vice-versa; se alguém gosta da obra, também gosta dela. Mesmo assim, é difícil alcançar os leitores em competição com as redes sociais, com o jogo de pôquer on-line; livrar-se das viagens de início de verão que os pop-ups oferecem ou divertir-se com as fotos de casas de campo, gatinhos fofos ou com o que os influenciadores sem estilo comunicam. Quem queria ler as palavras dela nesse barulho que dificilmente é notado, mas invade todo o humano na sua alma?

Claricinha sabia bem que o ciclo termina quando o texto é completado para ser enviado ao editor. Infelizmente o sentimento de completude é frágil e pode ser escurecido rapidamente pelo editor com a mensagem: "Sugestões de melhorias". Não faz mal. O processo continua… Com essa mensagem, mais uma etapa da escrita é alcançada, embora ainda haja dúvidas sobre o processo. E mais dúvidas foram adicionadas quando Claricinha leu o que Fernando Pessoa escreveu: "Escrever é esquecer. A literatura é a maneira mais agradável de ignorar a vida". Claricinha não queria esquecer nem ignorar a vida. Continuaria a comunicar, com o vocábulo, o que estivesse nela ou o que acontecesse no mundo inteiro, sem ou com reflexões. A sua vida continua e a sua filosofia sobre a escrita seria vivida.



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Claricinha, na sua poltrona, pensava, imaginava e fantasiava sobre o Prêmio Nobel, o ouro, a festa e a fama, quando foi trazida de volta à realidade. Não tinha ideias nem palavras e não tinha inspiração, embora o chá na caneca fosse saboroso. Mas resolveu que, quando recebesse o Prêmio Nobel, conseguiria ser uma dos que não apenas falam sobre criar textos, mas também uma dos que estão cheios de inspiração e que estão ansiosos para se esvaziar das suas ideias e expressá-las em palavras.



A realidade era que Claricinha raramente finalizava os seus manuscritos. Se fossem acabados, o editor retornaria uma mensagem para ela, sem exceção, como: "Bom trabalho! O texto é interessante, mas infelizmente não podemos publicar esse romance (ou novela)". O editor comentou que Claricinha Rubi tinha personagens excelentes nos seus textos, e também que ela descrevia bem ambientes com arranha-céus e florestas com árvores raras. Em outras imagens escritas, havia flores que cobriam a terra ao mesmo tempo em que as abelhas zumbiam e os pássaros coloridos voavam em cima, com o céu azul ao fundo. Várias vezes o redator notava que casas laranjas apareciam nos textos dela e, nesses casos, ele sempre ficava surpreso e constatava que era estranho. Naqueles momentos, o editor escrevia para Claricinha que os trabalhos dela pareciam estar presos na areia movediça, e continuava: "Falta uma história nas novelas. Por exemplo, um processo de um caminho de ponto A para o ponto B. Em outras palavras, o que está acontecendo e o que é a mensagem do texto?"



Claricinha e os amigos dela aceitavam a crítica, acendiam mais um cigarro, pediam por mais uma taça de tinto e diziam: "O processo criativo é o mais importante. Acabar as palavras escritas não é. Saúde!" Todo o mundo era fascinado pela perseverança dela. Hoje, na rua, eu podia imaginar que ela tocava os seus lábios, como se lesse um texto atual, e que ela só fazia pausas na leitura para tragar a fumaça saborosa. Atrás dela, como uma cauda, veio o triste Pedro Segundo.